1 de jan de 2012

O vlog que nunca terei



Entre ter um blog ou um vlog... sério, eu prefiro o blog, seja pra escrever ou acompanhar.

Pensei durante algum tempo se não seria melhor fazer esse post em formato de vídeo só por diversão. Mas ficaria ruim por dois motivos: não sou bom para aparecer em imagens gravadas (estáticas ou em movimento) e prefiro escrever, pois me dá mais tempo pra pensar e corrigir palavras. Com a quantidade de frases que eu costumo corrigir, o vídeo só ficaria pronto após o Armagedom maia.

... (pausa)

A internet sofreu e ainda sofre mudanças drásticas desde o surgimento da WEB 2.0, que visa se estabelecer por meio da consciência coletiva formada pelos internautas, permitindo que eles (nós) influenciem, criem e modifiquem seu conteúdo, em vez de deixar essa tarefa aos grandes programadores que fizeram com que ela começasse a engatinhar (WEB 1.0). Um dos efeitos mais importantes dessa mudança foi a chamada aceitação do beta perpétuo, ou seja: na internet, nada é definitivo e tudo pode ser alterado. Outro efeito foi o ideal de reaproveitamento, que redefiniu o conceito de propriedade virtual, permitindo e até incentivando que o conteúdo acrescentado por alguém possa ser reaproveitado por outro alguém, intensificando ainda mais o dinamismo insano de informações. Algumas características da WEB 2.0 se tornaram tão intensas e interligadas que não há como deixá-las de fora do assunto quando este é uma pessoa fazendo um monólogo em vídeo para colocar nas internetz. São essas características o jornalismo crítico, o marketing e a imagem.


O vlog, seguindo a própria origem do nome, é um blog em forma de vídeo. Um blog, é um espaço virtual na internet que possui um endereço para que pessoas possam acessá-lo e apreciar seu conteúdo, o qual vem dividido em partes chamadas posts (faz-se aqui uma relação bastante evidente ao verbo postar). Ao final, pode ainda deixar sua impressão sobre ele, positiva, negativa ou apenas analítica... ou, se assim desejar, pode escrever simplesmente "FIRST!!!!!!1111ONZE111!!" ou "P** no c* do FIRST!!!!" ou "Barreira anti-p** no c* do FIRST!!!" nos comentários.
 Pausa para decepção 

O vlog é a mesma coisa, mas o texto é recitado em vídeo e essa é a única diferença essencial no que diz respeito à estrutura técnica da coisa.

Faz o seguinte, assiste esse vídeo aqui (pare no momento que quiser, pois ninguém é obrigado a ver tudo).



Não vou criticar o que ela diz, mas como ela diz e porquê ela diz


A priori, o que foi feito é mais ou menos o que acontece aqui, um assunto é escolhido para ser o tema central do texto e a pessoa que faz o texto dá sua impressão sobre ele. O vídeo que eu postei foi encontrado aleatoriamente quando eu escrevi a palavra "vlog" no Youtube, não havia nenhuma razão especial para que fosse esse ou qualquer outro vídeo. Não tenho o mínimo interesse na pessoa que apareceu na tela, nem faço ideia de quem ela é.

Mais importante que o assunto é a forma como ele é abordado... Por mais estranho que pareça, o assunto muitas vezes não é prioridade. Dependendo da abordagem, a quantidade de sardinhas que escapam das redes de pescadores de Papua-Nova Guiné ganhará um status de problema global urgente, se é que já não o é... tem sardinhas naquela região do Oceano Pacífico?

 Vendem-se ilhas tropicais a preços imbatíveis. Não perca esta oportunidade e encomende a sua! 

A internet, através do contato que cria entre seus inúmeros usuários, facilita muito a divulgação de informações entre eles. De uma hora para outra, todos já sabem que a capital de Papua-Nova Guiné é Port Moresby, está um pouco ao Sul da Linha do Equador e que o único país que faz fronteira com ela é a Indonésia, país de maioria muçulmana agressiva que está prestes a ficar sem árvores nativas de tanto fabricar celulose. Chega de geopolítica por hoje.


Um elemento componente da abordagem é a fala. A entonação e o vocabulário são pelo menos metade do trabalho de ser um vlogueiro. Se você já assistiu um vlog desses mais famosos, já deve ter percebido que eles tentam parecer o mais claros o possível no que dizem para a câmera. Eu também faço isso com o que escrevo, com a diferença que tenho mais facilidade por estar trabalhando palavras escritas, o que não quer dizer, obviamente que seja impossível usar minha voz. Ainda não fiz isso por pura vontade. Para qualquer discurso a escolha certa de palavras faz toda a diferença. É importantíssimo tomar cuidado para não haver uma interpretação equivocada do que se diz, interferindo em todo o resto do texto e colocando a ideia toda a perder. Até o tempo que ele fica em silêncio, apenas olhando para a câmera ou para o vazio, tem um certo valor.


A imagem é planejada, tanto a pessoal quanto o cenário como um todo. Ele forma a figura do vlogueiro e ele se torna um personagem de si próprio. Sua imagem passa a acompanhar suas ideias e o background tem que estar em harmonia com o restante. O vlog é um programa de auditório em seu estilo mais básico. Tudo tem que estar organizado e de preferência ensaiado previamente. Questão de auto-marketing.


Nunca fui fã de vlogs. Mais especificamente, nunca fui fã de vlogueiros.


O vlogueiro costuma ficar de frente para a câmera, na vertical, sentado ou em pé, gesticulando mais ou menos, dependendo do assunto, humor e comportamento usual do personagem. A imagem do vlogueiro passa a ser relacionada com suas ideias e vice-versa, criando uma mistura perigosa, ideologicamente falando.

Existe uma frase bem famosa que repito bastante e diz o seguinte: "na internet, todos são corajosos". Não importa que tipo de vlog seja, crítico, informativo ou meramente humorístico, o vlogueiro tem que ser assertivo, ou seja, tem que falar bem, com argumentos válidos e mostrar certeza. O vlogueiro que sabe usar dessa assertividade consegue se fazer ouvir mais claramente e para um público maior. Em certos graus, consegue até transformar um argumento fraco num lema ou grito de guerra. Eis a armadilha: o vlogueiro se torna um líder carismático, com uma legião de seguidores que concordam cegamente com ele, sem buscar informações de uma outra fonte ou verificar se o que ele fala realmente faz tanto sentido quanto ele quer que outras pessoas acreditem... como a quantidade de sardinhas que não é pescada pelos habitantes de uma ilha perto da Austrália.


Um simples cut-jump (o corte entre uma cena e outra, sejam elas contínuas ou não) pode ser usada para promover a imagem do personagem. O posicionamento dele antes e depois do efeito deixa o vídeo mais divertido de assistir, menos maçante. A intenção inicial é que ele seja usado para cortar lapsos entre frases completas, para encurtar o tempo que levaram para ser ditas entre uma palavra e outra. A edição do vídeo é crucial, sendo que existem vlogs que ensinam como fazer um vlog, tratando de iluminação, sonoridade, edição de vídeo, etc., assim como também existem blogs que ensinam como fazer blogs... Enfim, a internet está repleta de tutoriais para praticamente tudo e, em relação aos vlogs, cada movimento, por menor que seja, conta.
 Material necessário para construir um helicóptero ao estilo MacGuyver. Use sempre tesoura sem ponta. 


Há um tempo vi a MTV fazendo propaganda de seu programa "Debate MTV" apresentado pelo vj Lobão. Nem sei se o programa ainda faz parte da grade da emissora. O tema a ser tratado me marcou de modo um tanto complexo: "Os vlogs se tornaram os novos formadores de opinião?". Não me interessei nem um pouco em assistir o episódio, seria desnecessário. Pessoas de todo tipo assistem a vlogs, vários níveis de escolaridade, culturas, histórias de vivência e opiniões diferentes. Dá-se uma importância exagerada a um vlog. Certo?

Nem todos pensariam assim, sempre tem aqueles que já cerram os punhos para defender uma ideia iluminada que lhes foi acesa por um rapaz falando mal dos outros num vídeo (#preçojustojá feelings).



Mas tem uma coisa que me irrita muito. Algo que por mais sentido que faça, eu não consigo digerir: vídeo-respostas a outros vlogueiros. Às vezes, uma pessoa faz um vídeo e trata de um assunto que desagrada alguém, e esse alguém resolve responder em forma de vídeo. O vlogueiro inicial faz uma tréplica, e assim por diante, ad infinitum, até que um dos dois se canse, pois nenhum vai admitir que está errado... na internet todos são corajosos e invulneráveis, todos querem ser levados a sério e esse é seu ofício. O fato é que usa-se mais da auto-imagem que do argumento para um embate de opiniões. O vlogueiro adquire uma postura muitas vezes arrogante, chegando tentar a desqualificar o argumento do adversário pelo tom irônico ou por críticas pessoais que tendem a ridicularizá-lo. Não raro, um vídeo é colocado para que respostas contrárias apareçam. E elas aparecem.


Vlogueiros, independente do que dizem e das ideias que propagam, são pessoas como você ou eu, com opiniões próprias e isso é algo que deve ser preservado. Por eles e por nós.


PS. Caso não tenha notado ainda, eu usei alguns elementos típicos de vlogs no texto, como um uso preponderado da narração em 1ª pessoa, que não existe em textos dissertativos e  o fator cômico inesperado, em comentários pessoais e imagens escolhidas de maneira aparentemente aleatória, além de eu me dirigir algumas vezes a você que está lendo... como se estivéssemos conversando. Sensação estranha...




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