18 de jul de 2012

Fazer da não-crença uma causa?


(O título era pra ser "Fazer das tripas coração?")

Desenvolvi minha posição ateísta ao longo de vários anos. Comecei com 14, quando tomei conhecimento de algumas ideias científicas: Evolução e Abiogênese. Segundo a primeira, um ser vivo pode se tornar mais complexo com o passar do tempo, em razão de modificações que ocorrem em seu organismo e o tornam mas adaptado para sobreviver em um ambiente, facilitando a perpetuação da espécie. A abiogênese, idealizada por Oparin e aperfeiçoada por Miller, afirma que, sob determinadas condições ambientais, moléculas inorgânicas podem se organizar em moléculas orgânicas, dando origem a aminoácidos, proteínas, enfim... em algum momento dessa história vai surgir um ser capaz de realizar metabolismo e se reproduzir.

Antes desse ponto havia o Tiago, uma criança que gostava de estudar um pouco mais que a maioria, um católico que julgava ter uma fé firme e estruturada dentro do deísmo. O pai dele havia estudado em colégio de religiosos e frequentara um seminário, mas não chegou a ser ordenado padre ou algo do tipo, se formou em letras e leciona até a presente data. A mãe mal terminou o ensino fundamental, não terminou o ensino médio, é uma dona de casa como foram todas as suas ancestrais conhecidas. Ambos católicos, mas um tanto quanto liberais, para a sorte do garoto.

Tiago não nasceu católico, mas era filho de católicos, e como é socialmente convencionado, fizeram com que ele também adentrasse a esfera religiosa, ainda que não pudesse expressar sua vontade. É difícil dizer que existe em algum lugar deste mundo uma criança religiosa de fato, a maioria só imita os parentes mais próximos.  Com Tiago não foi diferente, ele só ia á igreja porque era levado pra lá, só aprendia as orações pra acompanhar o que os outros diziam, não comia carne na Sexta-Feira Santa porque não devia, não falava a palavra "Deus" em vão porque era pecado. Ele não achava que era errado, mas não seguia essas regras por receio de ser repreendido caso as descumprisse. Tiago foi doutrinado, um dos piores horrores que pode acontecer com uma criança, pois teve ideias implantadas em sua cabeça e aprendeu a não contrariar nenhuma delas.

Mas Tiago foi crescendo e, em algum momento, começou a ter suas próprias ideias, que podiam ou não entrar em conflito com as que tinha até então.

A primeira foi por volta dos 7-8 anos. Como católico, Tiago aprendeu a chamar o deus que seguia de Pai, mas sentia certo incômodo com isso. Não lhe agradava muito a ideia de que Deus fosse um homem, pois nada impedia que fosse mulher. Michelangelo foi bastante desonesto quando pintou a Capela Sistina: não bastasse Deus ser homem ele ainda tinha um rosto (que foi baseado no rosto do próprio pintor e do grego Zeus). Como ficou um trabalho bonito, não vamos condená-lo tanto quanto poderíamos. Para Tiago, Deus não era mais homem, era apenas um humano, uma inteligência etérea, dotada de personalidade humana. 

Desde os primeiros contatos com a teoria de Darwin, a hipótese de um mundo iniciado com um homem (Adão) e uma mulher (Eva) já haviam sido descartadas, não havia o menor sentido nelas, de qualquer modo. Acho que nesse momento as ideias do Tiago estavam mais ou menos próximas do que se conhece hoje por Design Inteligente: A evolução não poderia ter acontecido sem regras, sem um controle, sem um projeto. Havia algo maior por trás disso, tinha que haver. Deus já não era mais tão humano quanto acreditava ser.

O parágrafo acima é especial, principalmente o final dele. O ser humano está biologicamente preparado para  buscar padrões lógicos, encontrar um modelo fixo a partir dos métodos indutivos e dedutivos. É engraçado pensar que o raciocínio lógico dos humanos nada mais é que um desenvolvimento natural do instinto, uma vez que instinto e lógica são vistos quase como antagonistas no que diz respeito ao comportamento humano. Tiago era incapaz de aceitar que o universo existisse por si só, sem a interferência de uma divindade, provavelmente por esse motivo.

7 de jul de 2012

Entre a cruz e a espada (e a balança)


A atual Constituição Federal do Brasil possui o seguinte dispositivo:

"Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:

I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público"
Um pouco antes, no Preâmbulo...

"Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL."

Qual a razão de se ter um "Deus" ali no meio? Nenhum dos legisladores percebeu que talvez tivesse uma contradição? Ou, sendo menos otimista, acharam que seria uma boa ideia, cultural e socialmente falando? Vai saber...

Religião não interfere no Estado e Estado não interfere na religião, é mais ou menos assim

Em termos bem simples, o artigo citado (bastante auto-explicativo) indica o chamado Princípio da Laicidade, segundo o qual o Poder Público não pode manter relações de dependência e/ou intimidade com credos religiosos...

 Belas palavras, nenhum efeito:

AMÉM, IRMÃO?